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A pérola escondida da Netflix que vale cada segundo do seu tempo, mas que você não assistiu

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A pérola escondida da Netflix que vale cada segundo do seu tempo, mas que você não assistiu

A vida é uma tela em branco. À medida que os anos se sucedem, vamos preenchendo esse espaço com as cores que nós mesmos escolhemos,

tomamos posse da vida como deveria ter se dado desde o princípio, apesar dessa maldição a reger o homo sapiens, cujos espécimes permanecem incapazes de cuidar de si mesmos por muitos anos, alguns mais que outros. Em “Belmonte”, o uruguaio Federico Veiroj parte dessa construção imagética, telas por se completarem, fazendo de seu personagem central o trampolim para se lançar a questões mais densas.

O equilíbrio entre viver e ser artista, como qualquer outro padrão que se tente estabelecer, é delicado, complexo, e é assim que o diretor o entende e o explicita em seu filme. O roteiro de Veiroj se ancora numa melancolia gradual, que bem como as pinturas apresentadas de maneira a pontuar o enredo, se insinua ao público até o seduzir, e boa parte do mérito dessa atmosfera envolvente deve-se ao personagem-título, carismático e distante a um só tempo.

Para os que creem, Deus dá ao homem o dom da existência e cabe ao homem viver sua própria vida, Deus não irá vivê-la por ele, não irá sofrer por ele; ainda que se compadeça de seu tormento e sempre o ajude de alguma maneira, não descerá de Seu Reino a fim de livrá-lo de todo perigo, não obstante esteja sempre a orientá-lo e a zelar por seu bem. Não faria sentido esperar isso de Deus. É como se nossos pais nos dessem um presente de grande valor e o mantivessem na redoma de um vidro muito grosso, muito resistente, que só eles pudessem remover, para ser apenas admirado, e de que só nos seria concedido desfrutar de tempos e tempos. A imagem da tela em branco é muito mais que uma simples metáfora para muita gente, e a figura que surge desse quadro, nem sempre harmoniosa — e mesmo disfórmica, até monstruosa —, escandaliza olhares mais sensíveis. Avulta um dos dilemas fundamentais da natureza humana: adequar sua visão de mundo ao que o restante da humanidade pensa ou sustentar a versão mais legítima de si mesmo e se apresentar aos outros como se é em verdade, arcando com as consequências de cada escolha, tanto num caso como no seu oposto? 

Javier Belmonte é um artista, mas antes de sê-lo, é um homem, um homem numa agonia que cresce, flagelado por suas pequenezas. O trabalho de Belmonte, grande personagem feito ainda maior pelo talento de invulgar de Gonzalo Delgado, registra corpos masculinos nus, mas não propriamente de homens. Os seres ali retratados se assemelham mais a faunos, quiçá à espreita dos homens, e ainda mais das mulheres, amalgamando-se ao fundo azul, de que se destaca não sem motivo, o falo, ora teso, ora em descanso. Em raras ocasiões a inteireza do ser homem foi materializada com tamanha amplidão e em recortes tão singelos e ao mesmo tempo tão crus. Aquelas criaturas teratológicas são todas, em alguma medida, o próprio Belmonte. Sua obra é uma sucessão de autorretratos, dispostos no caos particular de seu estúdio, mas que não perturbam ninguém, nem mesmo a filha, Celeste, de nove anos, vivida pela impecável Olivia Molinaro Eijo. Até mesmo Celeste, insegura e caprichosa como quase toda criança dessa idade, é capaz de ver Belmonte por trás de tanto impressionismo, ainda que não o consiga verbalizar. A filha é um mistério para Belmonte, que aos poucos se descobre embaraçado com a paternidade.

Talvez a própria natureza viril tenha se lhe tornado um enigma, já que não resiste à investida da mulher de um cliente, mas tomado pela culpa, não consegue ir até o fim. Ela se frustra, mas ele se sente aliviado. Prestes a ter seus trabalhos mais recentes expostos numa galeria de Buenos Aires, o personagem de Delgado só consegue pensar na ex-mulher, Jeanne, interpretada por Jeannette Sauksteliskis, grávida. Veiroj envereda pela crise existencial do protagonista, que tenta preencher seu vazio com a ajuda de Celeste. Aquele homem outrora ponderado, cordato, maduro, cede lugar a alguém que ele próprio não reconhece, de atitudes mais pueris que as da filha, que inconscientemente ou não, sente estar sendo usada e o rejeita. É impossível não sentir-lhe pena, ao passo que quem assiste julga-o um bobalhão, na melhor das hipóteses, e um patife, no cenário mais distendido; Belmonte é um estranho para Celeste, e a relação pai e filha volta ao centro da história também no sentido inverso. Se o personagem-título nota que o vínculo com Celeste se esgarça dia a dia, Belmonte também se incomoda sobremaneira com o possível adultério homossexual do pai, papel de Tomás Wahrmann — uma cena rápida, de fina sutileza, que demanda de quem assiste, mais que atenção, perspicácia —, sem saber como reagir a esse desconforto.

O filme tem escolhas narrativas estimulantes, a exemplo do tropo dos Belmonte se dedicarem a uma atividade escandalosamente materialista, com o irmão Marcelo, de Marcelo Fernandez Borsari, aterrado em casacos de pele numa câmara frigorífica, sem dúvida um bom respiro cômico, ainda que brevíssimo. Se o personagem-título parecia sem rumo, acossado pela própria condição masculina, no caminho para o desfecho raia uma promessa de libertação, hora em que a linda Mónica, vivida pela brasileira Giselle Motta, o acolhe. Final feliz? Nem tanto.

Filme: Belmonte  
Direção: Federico Veiroj
Ano: 2018
Gêneros: Drama/Comédia
Nota: 9/10

REVISTA BULA - POR HELENA OLIVEIRA EM FILMES - 15/11/2023

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