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Aquela coisa que existe, mas muitos preferem não saber

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Aquela coisa que existe, mas muitos preferem não saber

Artigo da semana por ROSANA HERMANN (*)

Nunca passei fome, nem vivi na miséria. Na pior das hipóteses posso dizer que vim de família classe pobre-alta. Infância muito simples, dois pares de sapato, avós analfabetos, mãe com primeiro grau. Fui também a primeira pessoa da família a conseguir cursar uma faculdade. Porque era pública. Se fosse paga, nem pensar. Mas a gente tinha casa, comida, escola, tinha todo o básico. O que a gente tinha era privação, mas não miséria.
Sempre vi a miséria urbana, as favelas em São Paulo, no Rio de Janeiro, mas sempre olhando de fora. E de longe.

Foi o trabalho como repórter na televisão que vi essa realidade quem muita gente não quer ver, não quer comentar e que, se sabe que existe, prefere fingir que não.

Fui para Parintins, cobrir o Festival folclórico entre os bois Caprichoso e Garantido, durante uma semana. Nosso trabalho incluia uma visita a uma comunidade ribeirinha cujo acesso ficava a mais de cinco horas de barco. Essa foto do blog foi tirada no caminho. (Aqui você pode vê-la ampliada )|

A equipe do programa que eu apresentava na época, foi acompanhar uma equipe médica que em sua visita semestral a essa comunidade. Isso mesmo, eles só recebem médicos duas vezes por ano. Acompanhei uma mulher que estava grávida de 5 meses, sendo orientada pelo médico para fazer o acompanhamento dela e do bebê, que sabia que quando outra equipe médica voltasse, o bebê já teria dois meses. Além de visitar o lugar, fomos levar escovas de dentes para todos e ensinar seu uso, porque ninguém ali nunca teve uma, nem sabia o que fazer com ela. Não preciso dizer que lá não tem Internet, nem TV, nem rádio. A rádio deles é um alto-falante num poste que está conectado a um microfone num barraquinho, onde um morador dá os avisos na ‘rádio poste’.

Esse breve exemplo que dou aqui é só para a gente lembrar que o Brasil não é feito apenas das grandes capitais, nem do sul-maravilha, mas de uma massa gigantesca de pessoas sem nenhum recurso, sem saneamento básico, sem  energia elétrica, sem acesso à saúde, sem nada. Acordam com o sol, dormem com a noite, comem o que a natureza dá. O peixe, um feijão do roçado, nenhuma perspectiva de futuro, nada. Sobreviver é o trabalho diário desses brasileiros, para garantir mais um dia. É assim em muitos lugares do norte, do nordeste, no centro-oeste, no sudeste, no sul. Tem miséria em todo lugar no Brasil. São mais de 52 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza. Um em cada 4 brasileiros. 

A desigualdade social no Brasil é gigantesca. Um estudo da Oxfam mostrou que 5% dos mais ricos do Brasil detém a mesma fatia que os outros 95%. Os seis homens mais ricos do nosso pais possuem a riqueza da metade da população mais pobre, 100 milhões mais pobres. É uma disparidade inacreditável que têm consequências terríveis para nosso povo.

Alguma coisa tem que ser feita pra melhorar essa realidade. E ela passa pela educação, justiça e combate à corrupção. Certamente, se conseguirmos combater a corrupção e destinar as verbas para o que é necessário, com um pouco de vontade política e gente competente isso pode melhorar. Pode, mas só vai se antes de tudo isso, houver uma sensibilização. Se houver amor ao próximo. Se as pessoas pelo menos se importarem umas com as outras. Se, pelo menos, puderem devolver pra sociedade o excedente que a vida lhes deu, em tempo, em dinheiro, em recursos, em conhecimento, em amor.

Enquanto a gente não resolve o problema todo do Brasil, vamos tentar fazer o melhor que cada um de nós puder. Mesmo que seja só agindo sem ódio nas redes sociais. Já é um começo.

http://emais.estadao.com.br - 09/04/2018, 05h37

(*) Rosana Hermann é Bacharel em Física pela USP, roteirista de TV (Sai de Baixo, Vai que Cola, Tudo pela Audiência, X-Tudo, Glub Glub, Xuxa, Faustão, etc) e apresentadora (Fala Brasil, Atualíssima, Show Business). Atualmente é professora de Roteiro Avançado na FAAP, apresentadora do programa Porta Afora ao lado de Fábio Porchat (Multishow, Porta dos Fundos). É escritora, corredora, palestrante, twitteira, blogueira há 17 anos, jornalista e tricoteira

Foto - Casinhas no Rio Amazonas - 

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