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Brasileiros lutam por cargos políticos nos EUA

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Brasileiros lutam por cargos políticos nos EUA

Priscila Sousa é a primeira brasileira a se candidatar a prefeita

Foto - Priscila Sousa faz campanha em Framingham Foto: Petrini Media

Aos 7 anos, Priscila Sousa foi levada do Espírito Santo para a cidade de Framingham, no Estado de Massachusetts, por seus pais, que recomeçaram a vida nos EUA. Duas décadas mais tarde, ela é a primeira brasileira a se candidatar a uma prefeitura americana, o que a transformou em um dos símbolos da mudança de atitude da comunidade em relação à participação política em seu país adotivo.

Com um dos maiores porcentuais de brasileiros em sua população registrados nos EUA, Framingham acaba de se transformar em cidade e terá sua primeira eleição neste ano. Integrantes da geração que chegou ao Estado de Massachusetts na mesma época em que os pais de Sousa, Pablo Maia e Margareth Shepard, ambos de 59 anos, são candidatos a 2 das 11 cadeiras de vereadores que estarão em disputa.

 

A 42 quilômetros de distância, em Everett, a brasileira Stephanie Martins também está em campanha para a Câmara Municipal. Ela e Sousa têm a mesma idade, 29 anos, e representam os imigrantes que cresceram nos EUA e transitam com fluência absoluta entre o português e o inglês. Já houve dois casos isolados de candidatos brasileiros a vereador que naufragaram em Massachusetts.

“Estou há 33 anos aqui e nunca vi campanhas tão profissionais e com chances reais de vitória como essas”, disse Álvaro Lima, diretor de pesquisa econômica e social da prefeitura de Boston e autor do livro Brasileiros nos Estados Unidos – Meio Século Refazendo a América

Nova geração. Sousa e Martins representam o que Lima chama de “geração 1.5”, brasileiros que foram aos EUA quando criança e cresceram expostos às duas culturas. Desconhecida até o lançamento de sua candidatura, em junho, Sousa se apresenta como a outsider que pretende renovar a política local e ampliar os canais de participação da população na administração pública. 

Para colher as 500 assinaturas necessárias para o registro de sua candidatura, ela passou horas abordando eleitores em portas de supermercados, parques e ruas de Framingham. 

Seu principal adversário é John Stefanini, que teve cinco mandatos de deputado estadual e integrou o conselho que administrava Framingham antes de sua transformação em cidade. Com mais dinheiro e experiência política, ele é considerado o favorito na disputa.

“As chances de Sousa dependem não só da mobilização de brasileiros e de hispânicos, mas também de americanos brancos, que representam 67% da população local”, disse Maurício Moura, presidente da empresa de pesquisa e inteligência eleitoral Ideia Big Data, que trabalha na campanha da candidata.

No grupo majoritário, a maior esperança de Sousa são os jovens, já que a geração mais velha tende a se identificar com políticos tradicionais. O problema é que minorias e jovens votam em menor proporção que os eleitores brancos mais velhos. 

Em Framingham, há 25 anos, Shepard tem chance maior de chegar à Câmara de Vereadores. Dona de uma empresa de limpeza comercial e doméstica, ela disputará a eleição em um dos nove distritos da cidade, no qual enfrentará apenas um adversário. Em sua região, há 3.690 eleitores registrados, dos quais pelo menos 450 são brasileiros, o equivalente a 12% do eleitorado. No total, a cidade tem 39,7 mil eleitores registrados e a estimativa é que 2 mil deles – cerca de 5% – sejam brasileiros.

Maia, que está há 35 anos nos EUA, disputa uma das duas vagas de vereadores escolhidos por toda a cidade, não por distritos. “Os brasileiros têm de se engajar na política e demandar seus direitos. Nós somos uma comunidade forte, com muitos empreendedores, mas não temos ninguém que nos represente”, afirmou o candidato, dono de imobiliária.

Formada em Ciências Sociais, Sousa adquiriu experiência administrativa quando assumiu o comando das duas empresas de sua família, de 2010 a 2012, período em que seus pais se afastaram por razões médicas. Suas propostas de campanha têm três pilares: garantir o investimento em educação infantil e adulta, simplificar os procedimentos de abertura e manutenção de empresas e ampliar oportunidades de participação das comunidades locais na administração pública.

Sempre que encontra desafios em sua campanha, ela lança mão de uma das frases repetidas por seu pai, Paulo Sousa: “O possível a gente faz agora. O impossível, daqui a cinco minutos.”

“A presença competitiva de quatro brasileiros em eleições locais reflete o amadurecimento dessa comunidade nos Estados Unidos”, observou Eduardo Siqueira, coordenador do Projeto Brasileiro Transnacional da Universidade de Massachusetts em Boston. “A população brasileira está começando a ter peso aqui. Antes não era nem possível pensar em candidaturas.”

Na opinião de Lima, o autor do livro sobre o meio século de imigração, o engajamento político é a consequência natural do grau de integração econômica e social conquistado pelos brasileiros. “Há dez anos, a Priscila não conseguiria arrecadar fundos para a campanha. A maioria dos brasileiros estava empenhada em trabalhar para sobreviver”, disse. 

No entanto, não há união da comunidade em torno da candidatura de Sousa. Muitos dos empresários da velha guarda defendem o nome de Stefanini, que apoiou os brasileiros desde o início de sua imigração para Framingham, há mais de duas décadas. “A Priscila está fazendo um trabalho lindo, mas acho sua candidatura prematura”, afirmou Urbano de Almeida Santos, que vive na Flórida, mas tem uma loja de móveis em Framingham, onde viveu por mais de uma década.

- ESTADÃO - Cláudia Trevisan, Correspondente / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 05h00

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