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De pai para filho

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De pai para filho

Políticos que passaram a vida inteira à sombra do poder chegaram a fazer fortuna, mas estranhamente após a Lava Jato começaram a empobrecer, enquanto seus filhos enriqueceram. Investigadores falam em ocultação “infantil” de bens

Os senadores Renan Calheiros (AL) e Romero Jucá (RR), ambos do MDB, possuem uma longa ficha corrida de inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF). Só em um procedimento investigatório, são acusados de receberem R$ 45 milhões em propinas em troca de emendas parlamentares que beneficiaram montadoras de veículos. Benedito Lira (PP-AL) também deixou sua digital num esquema de desvio de dinheiro da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Ele e o filho, deputado Arthur Lira (PP-AL), seriam destinatários de, pelo menos, R$ 106 mil apreendidos com um assessor deste último. Tudo indica que a quantia era apenas parcela de uma espécie de mesada. Se, ao final desses processos, a Justiça determinar alguma restituição ao erário, a julgar pelo que declararam à Justiça Eleitoral, esses políticos vão passar por dificuldades para explicar seus patrimônios. Estranhamente, em medida oposta às menções em processos por recebimento de gordas propinas, esses políticos apresentaram declarações de renda nas quais atestam que empobreceram nos últimos anos. O curioso é que seus filhos, em contrapartida, enriqueceram a olhos vistos. Alguns se tornaram até mesmo milionários. Puseram com uma mão e tiraram com a outra.

O procurador Vladimir Aras não quis emitir juízo sobre os “políticos mais pobres”. Mas disse em tom de ironia: “é a crise” (Crédito: Ruy Baron)

 

Caso impressionante de político que sempre esteve ao lado do poder, o senador Romero Jucá (MDB-RR) surpreendeu a todos esta semana ao renunciar à liderança do governo Temer. Mas, mais surpreendente ainda, é descobrir também que, pelo menos de acordo com sua declaração de bens entregue ao Tribunal Superior Eleitoral este mês, Jucá afirma não ter patrimônio algum em seu nome. A milionária da família é sua filha Marina de Holanda Menezes Jucá. Ao longo da última década, ela amealhou um verdadeiro império. Com empresas que, em Roraima, todos imaginavam ser de seu pai. Mariana se declara proprietária de uma emissora de TV, outra de rádio, holdings, uma imobiliária e uma mineradora. Somente essa última empresa, fundada em 2009, tem um capital social de R$ 2 milhões.

Marina não é a única afortunada na família do pobre Romero Jucá. O irmão do senador, Álvaro Oscar Ferraz, é sócio ou dono de 20 empresas. A maioria nos segmentos de consórcios e consultorias. A irmã do parlamentar, Helga Jucá, que trabalhou com ele no Senado, também enveredou para a carreira de empreendedora. Ela também atua no ramo de consultoria. O sucesso de Marina nos negócios teve um “empurrãozinho” do pai. A afiliada da TV Record, com sede em Boa Vista, a TV da família foi fundada por Romero Jucá. Mas hoje quem demonstra precisar de socorro financeiro é o senador emedebista. Mesmo sendo alvo de denúncias de enriquecimento à custa da corrupção, Jucá declarou possuir apenas R$ 194 mil.Tudo em dinheiro vivo: R$ 29 mil em conta corrente e R$ 150 mil guardados embaixo do colchão.

Por meio de sua assessoria, Romero Jucá declarou que a redução patrimonial “refere-se a recurso em espécie que ele declarou em 2010”. Jucá ressaltou, através dos assessores, que há mais de 20 anos “não tem patrimônio”. Sobre os inquéritos, o senador informou que tem absoluta certeza que os processos não darão em nada e que tem se oferecido a prestar os esclarecimentos antes mesmo de ser notificado. Mas, curiosamente, não comentou sobre o robusto patrimônio de sua filha.
Benedito Lira (PP-AL) é filho do usineiro João Lira, um dos mais poderosos de Alagoas. Responde a acusações na Justiça, como a que foi denunciado por participar de um esquema de superfaturamento de ambulâncias adquiridas pelo Ministério da Saúde. Seu nome também foi incluído como beneficiário no esquema de corrupção na Petrobras, na investigação da Operação Lava Jato. E, por fim, pesa contra ele denúncia de recebimento de propina paga com recursos da Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU). Como senador, recebe salário mensal de R$ 37,5 mil. Porém, na sua declaração de bens encaminhada ao TSE, disse possuir um patrimônio de apenas R$ 76 mil, o que equivale a somente dois salários de senador. Lira não foi localizado por ISTOÉ para explicar como perdeu mais de R$ 600 mil em quatro anos.

Mas se ele estiver precisando de dinheiro, pode recorrer ao seu filho, o deputado Arthur Lira (PP-AL), que vive em situação mais confotável. Arthur possui terreno, apartamento, embarcações e dinheiro em conta e em aplicações. Ao todo, declarou possuir mais de R$ 1,7 milhão. Sua vida melhorou na exata medida das perdas que seu pai sofreu. Em 2014, Arthur ostentava patrimônio R$ 1,1 milhão. Agora, declarou ter R$ 1,7 milhão.

Alagoas parece mesmo ser um fenômeno em que os políticos suspeitos de irregularidades acabam empobrecendo, enquanto os filhos enriquecem. O senador Renan Calheiros (MDB-AL) é outro que viu seus bens caírem. O equivalente a R$ 300 mil desde 2010, quando elegeu-se. Declarou agora possuir R$ 1,8 milhão. Já seu filho, o governador Renan Filho (MDB), vê crescer sua fortuna. Em 2014, possuía R$ 785 mil e hoje diz ter R$ 810 mil.

Camuflando bens

Em princípio, não há nada de ilegal um político empobrecer. Mas o fenômeno tem sido acompanhado com atenção por investigadores ligados à Operação Lava Jato e outros casos que envolvem corrupção pública, conforme apurou ISTOÉ. De acordo com fontes ouvidas pela reportagem, há uma desconfiança de que tal empobrecimento tenha por propósito ocultar bens que poderiam vir a ser bloqueados futuramente pela Justiça. Membros do MP consideram, porém, que tal artimanha, se confirmada, seria “infantil”, já que a transferência de bens para familiares seria passível de verificação, por meio da quebra de sigilo e rastreamento do dinheiro.

Ex-secretário de cooperação internacional do Ministério Público Federal, o procurador Vladimir Aras era o responsável por intermediar o repatriamento de remessas de dinheiro e documentos que comprovavam a titularidade de contas e empresas offshores abertas para lavar recursos desviados da Petrobras para o exterior. Com a sua ajuda, o País recuperou mais de R$ 5 bilhões desviados. Ao ser questionado sobre o empobrecimento dos parlamentares, Vladimir disse que não poderia emitir juízo. Mas não resistiu a fazer um rápido comentário em tom de ironia, claro: “É a crise”. É…

- ISTO É - 

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