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Enquanto aguarda por remédio, mãe vê câncer do filho avançar

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Enquanto aguarda por remédio, mãe vê câncer do filho avançar

Droga ainda não testada em humanos é a esperança de Tamiris de Carvalho para reverter quadro de coma do filho que já dura quase um ano

Foto: João na primeira sessão de quimioterapia para impedir o crescimento do tumor - Arquivo pessoal

Quase um quarto da vida de João Lucas, de 4 anos, passou-se na cama de um hospital. 

Desde o começo do ano passado, o menino está em coma. Ele sofre de um tipo de câncer maligno no cérebro chamado de ependimoma, que acomete principalmente crianças. 

Todos os dias, a mãe dele renova as esperanças de que o filho se recupere. A principal delas é uma nova medicação, desenvolvida a partir da saliva do carrapato-estrela. Pode ser uma salvação, mas a substância não está disponível para testes em humanos ainda. 

Enquanto aguarda por remédio, mãe vê câncer do filho avançarJoão após entrar em coma - Arquivo pessoal

“Isso é o que mais dói na gente. Tem a fórmula da medicação, mas não podemos usar. Já imaginou, se ela der certo, quantas famílias não vão parar de sofrer? ”, afirma a professora Tamiris Cristina Sirino de Carvalho, de 30 anos, mãe de João Lucas.

O ependimoma é um dos tumores malignos mais comuns no cérebro de crianças e adolescentes. O neurocirurgião Sérgio Cavalheiro, professor titular de neurocirurgia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), afirma que o ependimoma representa 10% de todos os tumores malignos cerebrais em crianças.

Segundo Cavalheiro, a complexidade do tumor muda de acordo com a localização dele. Os que são localizados na medula e os supratentoriais, no cérebro em si, são mais simples. Os da fossa posterior, como de João Lucas, possuem uma tendência maior de reincidência, mesmo quando são totalmente removidos por cirurgia.

A primeira cirurgia de João Lucas foi a colocação de uma válvula para a drenagem do líquido do cérebro para o estômago. Um sintoma comum do ependimoma na fossa posterior é a hidrocefalia. Isso ocorre pois o tumor impede a circulação do líquor produzido no cérebro, que se acumula e aumenta a pressão craniana.

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Os sintomas variam de acordo com a localização do tumor. Além da hidrocefalia, vômito, dor de cabeça e torcicolo estão relacionados ao ependimoma na fossa posterior. Sinais como crise convulsiva e aumento da pressão intracraniana indicam que está localizado no cérebro. Os tumores localizados na medula acarretam em paralisia dos membros inferiores.

O melhor tratamento para o ependimoma, segundo o neurologista, é a retirada completa do tumor e a radioterapia posterior para impedir que ele volte.

“Nós vamos armados de tecnologia para causar o menor dano possível ao cérebro e retirar a maior parte do tumor. Quando não conseguimos tirar tudo, repetimos a cirurgia”, explica.

João na primeira sessão de quimioterapia para impedir o crescimento do tumor
João na primeira sessão de quimioterapia para impedir o crescimento do tumor - Arquivo pessoal
 

João Lucas fez três cirurgias para a retirada do tumor, mas não foi possível removê-lo completamente — a última foi em dezembro de 2018.

Após complicações em uma operação para trocar a válvula de drenagem do líquido cerebral, João Lucas ficou muito debilitado para passar por outros procedimentos cirúrgicos, e os médicos indicaram tratamento paliativo.

Tamiris insistiu para que os médicos tentassem outras soluções. Segundo a mãe, a neurocirurgiã responsável pelo caso disse que tentaria encontrar uma quimioterapia que pudesse segurar o crescimento do tumor até que João Lucas se recuperasse para uma nova cirurgia.

João Lucas teve uma infecção urinária durante essa espera, que evoluiu para uma sepse. Devido às poucas chances de sobreviver, ele teve que ser transferido da UTI para o tratamento paliativo, para dar vaga a outras crianças.

Esse episódio o colocou em coma desde 22 de março de 2018. Como não foram feitos outros tratamentos para impedir o crescimento do tumor, ele evoluiu e, hoje, apenas 30% do cérebro de João Lucas está em condições normais.

“Quando soubemos dessa nova droga, marcamos com o doutor Sergio imediatamente para saber mais, e ele disse que poderia demorar muito para usarmos [a nova substância], que precisava testar. A gente até brincou com ele ‘usa no meu filho, testa nele’”, conta Tamiris.

João Lucas durante o tratamento de quimioterapia
João Lucas durante o tratamento de quimioterapia - Arquivo pessoal
 

Cavalheiro explica que a nova droga desenvolvida no Instituto Butantan, em São Paulo, mostrou-se eficaz contra as células do ependimoma, tanto em testes laboratoriais quanto em camundongos. O próximo passo é o teste em seres humanos.

“Eu também estou ansioso, pode salvar a vida dos meus pacientes. Estamos esperando a indústria produzir para pacientes que não responderam a mais nada. Mas não podemos pular etapas. Teste em humanos já é difícil, em crianças é mais complicado ainda”, explica o neurologista.

“Deram quinze dias de vida para o meu filho, e ele está vivo e estável. Talvez ele só esteja esperando essa medicação. ”

Tamiris Cristina Sirino de Carvalho, mãe de João Lucas

Cavalheiro explica que o ependimoma na fossa posterior provavelmente é outro tipo de tumor, uma vez que apresenta uma complexidade muito maior que os que se desenvolvem em outras regiões do sistema nervoso.

“A gente tinha conhecimento de três tipos. Depois que vieram alguns testes genéticos, descobrimos um quarto tipo. Hoje, devido à tecnologia, temos conhecimento de nove tipos de ependimoma.”

 
A droga do carrapato
 

Batizado de Amblyomin-X, a droga que parece ser uma esperança para os pacientes diagnosticados com ependimoma é uma proteína proveniente da saliva do carrapato-estrela.

“Quando começamos a estudá-la, estávamos à procura de um anticoagulante”, afirma a coordenadora do Centro de Excelência para Descobertas de Alvos Moleculares, no Instituto Butantan, Ana Marisa Chudzinski-Tavassi.

Como o carrapato se alimenta de sangue, os pesquisadores acreditavam que em sua saliva poderiam existir substâncias que funcionassem como inibidor de coagulação.

Eles selecionaram uma proteína que poderia ser um anticoagulante potente e a partir de seu gene foi utilizada uma técnica de engenharia genética para a produção da proteína em uma quantidade maior — sem que ela precisasse ser extraída do carrapato. 

“Depois que descobrimos a proteína, fomos verificar se ela já tinha sido catalogada por outros estudos e vimos que não, mas que o tipo que ela se enquadra, que era inibidor do tipo kunitz, tinha relação com proliferação celular”, explica Ana Marisa.

Para garantir que o anticoagulante fosse seguro, os pesquisadores fizeram testes em culturas de células normais de vasos e também em células tumorais. “Foi esse o resultado surpreendente, foi o princípio da descoberta. A proteína matava as células tumorais. ”

Os primeiros testes foram em células de melanomas (câncer de pele), mas a medicação se mostrou eficaz em outros tipos de tumor, como o ependimoma e o câncer de pâncreas.

"Não temos dúvidas que isso funciona, mas agora precisamos conseguir fazer em uma escala maior"

Ana Marisa Chudzinski-Tavassi, Instituto Butantan

Os testes feitos in vitro tiveram resultado positivo e passaram para os testes animais, que também responderam bem.

“Fizemos testes colocando células do tumor de humanos em camundongos e deu certo. Fizemos em cavalos com melanomas e também funcionou. Não temos dúvidas que isso funciona, mas agora precisamos conseguir fazer em uma escala maior”, afirma.

Quando a escala de produção aumenta, é necessário verificar se a substância se mantém estável e integra.

“Temos de produzir em quantidade. Isso tem que se manter íntegro, em uma condição em que possa ser transportado, armazenado, enviado para qualquer lugar do país. Tem que durar pelo menos um ano para poder distribuir e estocar”, explica.

No momento, um laboratório piloto está sendo adequado para que tenha a infraestrutura necessária e condições de boas práticas para a primeira fase dos testes clínicos em humanos.

Os testes realizados em animais terão de refeitos para garantir a eficácia da medicação após a escala ter sido aumentada.

“É necessário fazer, também, um teste pré-clínico em que nós verificamos quanto da droga pode ser aplicada sem efeitos adversos. ”

Após todos os testes terem sido repetidos, os pesquisadores desenvolvem o desenho do ensaio, ou seja, definem detalhes dos testes como: em quantas pessoas a droga será testada, qual o tipo de tumor será utilizado para o teste, quantas doses serão aplicadas, entre outros critérios.

Esse desenho é submetido à Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa em Seres Humanos) e protocolado na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

“A primeira fase dos testes em humanos só pode começar depois que a Anvisa aprovar o documento de desenvolvimento do medicamento.”

Segundo a pesquisadora, o processo até pedir a aprovação para a Anvisa deve demorar cerca de um ano. As próximas etapas a partir daí são imprevisíveis em relação ao tempo.

- Aline Chalet, do R7*  - *Estagiária do R7 sob supervisão de Fernando Mellis

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