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Estudante de 15 anos supera a depressão e o bullying e entra em medicina na USP

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Estudante de 15 anos supera a depressão e o bullying e entra em medicina na USP

Adolescente superdotada de São Carlos (SP) sofreu com a incompreensão de professores e colegas e com a falta de estímulo do sistema de ensino, mas passou no 2º curso mais disputado da Fuvest.

Enquanto muitos alunos de 15 anos estão iniciando as aulas no ensino médio este ano, a estudante Emanuelle Marie Cassin Passarini, de São Carlos (SP), irá iniciar o 1º ano de medicina na Universidade de São Paulo (USP), em Bauru. O sonho de muitos vestibulandos chegou cedo para a adolescente, mas isso não significa que ela teve um caminho fácil.

Pelo contrário. Emanuelle é superdotada e teve que superar muitos obstáculos para passar por cima do preconceito de colegas e professores que não entendiam seu comportamento na sala de aula.

Ela descreve o período que passou no ensino fundamental e no ensino médio como muito difícil. O motivo era a desmotivação pelo sistema de ensino das escolas tradicionais e o bullying que sofria dos colegas que a levaram a entrar em depressão.

 

"Eu não me lembro de ter gostado da escola. Eu não me lembro de um dia na minha vida que eu não reclamei para ir para a aula”, contou Emanuelle.

 

Estudante superdotada de 15 anos passa no curso de medicina na USP de BauruEstudante superdotada de 15 anos passa no curso de medicina na USP de Bauru

 

Superdotada

Emanuelle foi aprovada por meio Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para a primeira turma do curso de medicina da USP de Bauru, o segundo mais concorrido da Fuvest desse ano, com 105,9 candidatos por vaga, e está entre as alunas mais novas a entrar em um curso de medicina.

Ainda atordoada, ela falou com o G1 poucas horas após saber do resultado, na segunda-feira (29) e contou que, ao contrário do que a maioria das pessoas pensa, a vida escolar de um superdotado não é fácil.

Enquanto a média da população tem um QI entre 90 e 110, os superdotados têm mais 130. O da Emanuelle gira em torno de 160.

Embora o QI não seja o único critério para determinar um superdotado, dá uma amostra do poder de raciocínio dessa garota que começou a ler com menos de 3 anos, tem duas medalhas de bronze na Olimpíada Nacional de Matemática e já foi bolsista de iniciação científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

 
A estudante Emanuelle Marie Cassin Passarini passou em medicina na USP de Bauru (Foto: Reprodução/ EPTV)A estudante Emanuelle Marie Cassin Passarini passou em medicina na USP de Bauru (Foto: Reprodução/ EPTV)
 

Os pais, o professor universitário Luis Carlos Passarini, e a assistente administrativa Wânia do Carmo Cassin Passarini, entenderam cedo que a filha estava à frente das outras crianças.

 

"Ela tinha um ano e já montava quebra-cabeças para crianças de 5 e 6 anos. Começamos a observar que os coleguinhas da idade dela que iam em casa não conseguiam fazer o que ela fazia", contou Wânia.

 

Como o conteúdo normativo das escolas tradicionais para as pessoas da idade dela não era suficiente, ela tentou adiantar de série, mas o procedimento é muito complicado, sendo necessária uma ampla avaliação teórica e psicológica.

Mesmo assim, Emanuelle conseguiu se reclassificar por duas vezes, entre o 5º e 6º ano do Ensino Fundamental e entre o 2º e 3º ano do Ensino Médio.

 
Os pais de Emanuelle, de São Carlos, que passou com 15 anos na medicina da USP estão orgulhosos do desempenho da filha. (Foto: Fabiana Assis/G1)Os pais de Emanuelle, de São Carlos, que passou com 15 anos na medicina da USP estão orgulhosos do desempenho da filha. (Foto: Fabiana Assis/G1)

 

Bullying e ensino deficiente

 

Foi o hábito de ler em qualquer lugar – inclusive na sala de aula – o que causou mais estranheza dos colegas de escola. Sofreu preconceitos até de professores que demoraram a entender o seu jeito e a desatenção na sala de aula.

 

“Eu ficava muito entediada porque era muito fácil. Eu ficava lendo durante as aulas”, contou.

 

O pior período, segundo Emanuelle foi recentemente, aos 14 anos, em uma escola particular quando colegas colocaram lixo na sua mochila e jogaram coisas na sua cabeça.

Foi aí que decidiu se transferir para a Escola Técnica Estadual (ETEC) Paulino Botelho e encontrou um sistema de ensino mais atraente ao seu perfil. “Fui muito acolhida, as coordenadoras me incentivaram e ajudaram a me reclassificar. Tive muito amparo, elas lutaram muito por mim”, contou.

Paralelamente, passou a fazer um cursinho pré-vestibular à noite, onde também foi bastante estimulada a buscar novos conhecimentos.

Com incentivo, passou a se interessar mais pelos estudos, se tornou bolsista do CNPq e teve anos mais tranquilos na escola. Emanuelle acha que o sistema de ensino não está preparado para os superdotados e acaba sendo punitivo ao invés de estimulante.

“É muito triste porque você vê talentos morrendo. O Brasil nunca ganhou nenhum Prêmio Nobel e isso pode ser atribuindo ao fato de que o sistema de educação mata os gênios. É muito difícil você encarar tudo isso e decidir que vai lutar mesmo assim, que vai fazer a diferença, que não vai deixar as injustiças acabarem com você”, lamentou.

 
Estudante de 15 anos de São Carlos é aprovada em medicina na USPEstudante de 15 anos de São Carlos é aprovada em medicina na USP
 

Ela diz que, agora que passou no vestibular quer fazer alguma coisa para mudar isso e melhorar a condição das pessoas superdotadas e fez um desabafo emocionado (veja o depoimento completo acima).

“Eu posso comparar a minha vida escolar com uma música do Paul MacCartney (‘Somebody Who Cares’) que fala que às vezes você parece um carro e que tiram as rodas quando você tem algum lugar importante para ir".

"É muito frustrante você saber que não vai chegar a lugar algum. A minha vida escolar foi mais ou menos isso, porque eu era superdotada, eu tinha muito talento, muito para oferecer e não tinha oportunidade para exercer aquilo que eu tinha", disse.

 

"Era muito entediante, muito frustrante e eu posso dizer que até um pouco letal, porque tinha dia que eu chegava em casa e eu só queria morrer para não ter precisar ir na escola no outro dia”, ressaltou.

Ela diz que não é a única a sofrer com esse tipo de incompreensão, que causa consequências terríveis.

 
A estudante Emanuelle Marie Cassin Passarini passou em medicina na USP de Bauru (Foto: Reprodução/ EPTV)A estudante Emanuelle Marie Cassin Passarini passou em medicina na USP de Bauru (Foto: Reprodução/ EPTV)

 

“Conheci muita gente que era assim. A maior parte ficou doente, desenvolveu transtornos. Eu não conheci ninguém superdotado que não tivesse depressão, transtorno de ansiedade, transtorno de pânico ou fobia social”, contou.

Emanuelle diz que o apoio que encontrou nos pais e em alguns professores foi fundamental para conseguir superar os traumas e até uma depressão.

“A melhor parte da música do Paul MacCartney é que ela acaba falando que você devia saber que sempre tem alguém que se importa com você. Independe do quanto mal você está, tem sempre que se importa. Isso é verdade, meus pais sempre lutaram por mim. Eu tive coordenadoras que ser esforçaram demais para eu não morrer na praia. O cursinho me ajudou demais, eu vim aqui muito nova e tive oportunidade de estudar o máximo que eu podia, dar o meu máximo".

 

"Sempre teve gente que me ajudou muito. Seria egoísmo meu achar que tudo o que eu fiz foi meu mérito. O resultado de passar com 15 anos em medicina não foi mérito só meu, foi um conjunto de esforços de muita gente que me ajudou a chegar onde eu estou”, disse.

 

Medicina

USP de Bauru (Foto: Divulgação)USP de Bauru (Foto: Divulgação)

Até fazer a inscrição, faltando poucas horas para encerrar o prazo do Sisu, Emanuelle não tinha certeza de que faria medicina.

 

“É uma escolha difícil, ainda mais porque tem muitas áreas interessantes para você atuar e foi difícil escolher entre todas elas”, contou.

 

Tudo indicava que ela iria optar por Engenharia de Produção. Mas durante o ano todo a ideia da medicina rondou sua cabeça. Na busca por mais informações conheceu o curso novo da USP, que irá abrir a primeira turma em Bauru.

“Num workshop, eu conversei com um professor da USP de Ribeirão que falou desse curso que irá ser mais alternativo, mais voltado para a tecnologia. Eu senti uma inspiração muito forte de que devia fazer medicina, sempre quis trabalhar nos Médicos Sem Fronteira, independente da profissão que eu tivesse, sempre pensei em participar para ajudar”, contou.

Agora, esse sonho também está mais próximo de ser atingido, mas antes ela precisa se acostumar com o sonho realizado de passar no vestibular e se acostumar com a ideia de que, aos 15 anos, é uma universitária.

“Parece uma coisa tão distante passar no vestibular. É tão intenso, é tanto tempo dedicado pelo seu sonho que quando você o alcança, o sonho nem parece que é verdade”, afirmou.

- Por Fabiana Assis, G1 São Carlos e Araraquara -

 

 

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