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Meu casamento é também um ato político

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Meu casamento é também um ato político

Edgar de Souza, prefeito de Lins (SP) pelo PSDB, é o primeiro líder municipal assumidamente gay casado com outro homem no Brasil

Sou o primeiro prefeito assumidamente gay casado com outro homem no Brasil – e, possivelmente, o único de toda a América Latina. Quando disse sim ao Alex, no último dia 4, em uma cerimônia para 300 convidados, não pensava em fazer disso uma bandeira. Simplesmente decidimos celebrar nossa união de treze anos, um amor tranquilo, de cumplicidade e mútua admiração. Contudo, como sou uma figura pública, sabíamos que o casamento seria também um ato político. Somos dois adultos, respeitados, exercendo nossos direitos como cidadãos, e podemos ser uma referência para outras pessoas. Podemos dar visibilidade ao casamento gay e inspirar outras pessoas a terem seus direitos reconhecidos. O casamento é um direito garantido em nosso país e queremos que nossa família seja aceita e reconhecida.

Sabemos também que esse direito não foi conquistado com tranquilidade. Foi uma vitória judiciária, conseguida a duras penas, e que ainda não terminou. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou na semana passada um projeto para alterar no Código Civil a definição de entidade familiar e vínculo conjugal como a união “entre homem e mulher”. Se não houver recurso, o texto pode passar pela Câmara dos Deputados. Por mais que haja resistência, os direitos civis adquiridos serão respeitados. Nosso casamento, além de uma celebração pessoal, é também uma luta por dignidade, cidadania e pela democracia.

Conheci o Alex quando éramos adolescentes, mas só fomos nos reencontrar em 2004, quando eu tinha 29 anos e estava no segundo mandado para vereador. Em seis meses, estávamos morando juntos. Na época, eu não escondia que era gay, mas também não falava abertamente sobre o assunto. Fazia a linha “não pergunte, não conte”, como os militares americanos, e isso me incomodava demais. Não tinha problemas com a minha sexualidade e não via motivos para que outras pessoas se preocupassem com isso.

Costumo dizer que tive dois nascimentos, o primeiro, em 1978, com o parto de minha mãe, e o segundo, dezenove anos depois, quando me aceitei. Sou de família católica, participei da coordenação da Pastoral da Juventude e, durante a adolescência, realmente acreditava que poderia ser “curado”. Era um sofrimento danado. Mas, aos 19 anos, sofri uma paixão avassaladora por outro homem e tive grandes embates morais comigo. Foi então que percebi que Deus me ama como sou e não há nenhum discurso bíblico que me prove o contrário. Sempre fui ligado aos movimentos da Igreja Católica, da Teologia da Libertação, e posso discutir com qualquer pessoa sobre o assunto – ser gay não é pecado.

"A administração pública deve ser marcada pela transparência e, em minha vida pessoal, não tenho nada a esconder"

Minha entrada na política também foi por meio dos movimentos sociais religiosos. Sou formado em sociologia e, em 2000, fui eleito para o primeiro de meus três mandatos como vereador. Na última eleição para o cargo, em 2008, alguns concorrentes tentaram usar argumentos contra a minha sexualidade para atingir minha candidatura, mas não funcionou. Em 2012, durante a campanha para a prefeitura, os adversários diziam que eu fazia shows de drag queen na cidade, que ia transformar Lins em uma boate. Uma semana antes da eleição, os adversários distribuíram panfletos que exibiam uma foto minha com o Alex encostado no meu ombro com os dizeres: “Se votar no 45, essa família vai governar a sua”. Foi aí que minha resposta aos ataques, que costumava ser sutil, tornou-se mais firme e direta. Afirmei em um dos últimos comícios que, se eu escondesse a pessoa que amo, com quem vivo, eu não merecia ser eleito prefeito. Afinal, a administração pública deve ser marcada pela transparência e, em minha vida pessoal, não tenho nada a esconder. Não é minha vida íntima que vai dizer se sou um bom prefeito ou não. Fui eleito com 53% dos votos e confesso que a intensidade da reação da população me surpreendeu.

Apesar de estar localizada no Oeste paulista, região com visão política conservadora, Lins tem uma tradição forte de movimentos católicos progressistas e ligados a trabalhos sociais. É uma cidade universitária e, em vez de os ataques homofóbicos me atingirem, aconteceu um movimento inverso. Eu era procurado por pessoas que se solidarizavam comigo e estavam assustadas com as agressões absolutamente desnecessárias. O carinho que recebi e o volume das manifestações de apoio foram incríveis.

Na reeleição não enfrentei os mesmos problemas. Na primeira gestão, fiz um trabalho sério, em que me aproximei das lideranças comunitárias e foquei na educação, saúde e na ‘profissionalização’ da gestão pública. Como não tenho o que esconder, sempre fui muito respeitado em minhas decisões e sou muito bem recebido pelas mais diversas pessoas, em todos os lugares em que vou. Tanto é que meu casamento teve a benção ecumênica de uma ministra católica, um pastor anglicano, uma espírita kardecista e um pai de santo. Costumo dizer que minha postura não é extraordinária – o que é extraordinário é o acolhimento da população de Lins.

VEJA.com Depoimento colhido por Rita Loiola Foto por Heitor Feitosa

 

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