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O ganhador do Oscar 2024 está na Netflix e você pode ainda não ter assistido

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O ganhador do Oscar 2024 está na Netflix e você pode ainda não ter assistido

Wes Anderson é magia pura...

Poucos cineastas são capazes de emular o sonho da forma como possivelmente desponta nos meandros do inconsciente de cada um e assim chegar ao resultado mais próximo do que se poderia chamar de realidade onírica, indo muito além do delírio, da imaginação, da fantasia. A faculdade de conceber outras terras, outros mundos e, claro, pessoas adequadamente estranhas a fim de os habitar é um valioso predicado artístico que Anderson foi burilando ao longo de quase três décadas de carreira, e em “A Incrível História de Henry Sugar e Outros 3 Contos” o diretor exercita a veia tragicômica sem prejuízo das confabulações que vai erigindo em torno de um personagem bastante peculiar, como ele também dotado de um talento algo metafísico.

Este talvez seja seu trabalho mais autoral, mesmo que a adaptação de uma narrativa literária que ganhou mundo há mais de quarenta anos. Publicada em 1977, “The Wonderful Story of Henry Sugar and Six More” (“a incrível história de Henry Sugar e mais seis”, em tradução livre), compilação de meia dúzia de relatos curtos que o britânico Roald Dahl (1916-1990) produziu ao longo de meio século de carreira, sofre uma ligeira abreviação. Ficam de fora “O Menino que Falava com Animais”, “O Tesouro de Mildenhall”, “O Mochileiro”, “Golpe de Sorte” e  “Muito Fácil”, e entram “O Cisne”, “Veneno” e “O Caçador de Ratos”, além, claro, da anedota funesta que dá nome ao soberbo trabalho que garantiu a Anderson o Oscar de Melhor Curta-Metragem em Live Action, a única vitória da Netflix na premiação da Academia. Compromissos profissionais interditaram a ida do diretor à cerimônia de entrega das estatuetas —Anderson está na Alemanha, junto com Bill Murray, Benicio Del Toro e Michael Cera, gravando um novo filme cujos título e enredo faz questão de manter sob sigilo —, mas agradeceu à família de Dahl pela confiança. Faço das suas as minhas palavras.

Os quatro filmetes totalizam 88 minutos e seis segundos de reflexão pelo encantamento. Em “A Incrível História de Henry Sugar”, que abre a versão de Anderson para a antologia dahliana, um homem ajeita-se na cadeira macia, aponta alguns lápis e começa a escrever, narrando o que vai se ver ao longo de módicos (mas precisos) 39 minutos. Ralph Fiennes serve de mestre de cerimônias a um carrossel de tipos extravagantes, e por sua boca o espectador fica conhecendo o tal Henry Sugar cuja trama maravilhosa refere-se ao que vai expor à audiência acerca da vida de outro homem, não da sua própria. A linguagem teatral, com cenários plenos de cor que sobem e descem e deslizam de um para o outro lado, é a grande joia da equipe liderada por Kevin Timon Hill, recurso que o texto de Anderson aproveita com todo o critério. Quando é o momento de detalhar o enredo, afinal, a ação sai da cabana onde está Fiennes e renasce num consultório de pronto-socorro, onde descansam Chaterjee e Marshall.

Imdad Khan, o velho sessentão que aparenta muito mais, cabelos e bigodes alvos e desgrenhados e um proeminente tufo de pelos na entrada do orifício auricular, interrompe a pausa dos jovens médicos vividos por Dev Patel e Richard Ayoade para dizer que desde garoto e capaz de captar imagens sem o uso do globo ocular. A partir de então, “A Incrível História de Henry Sugar” envereda pelo mistério de Khan, principiando por suas experiências sobrenaturais com um guru na Índia de 1890, quando tinha 17 anos, até que, vinte anos depois, estava apto a se apresentar também como um xamã evoluído como nenhum outro ser humano conseguira até ali. Ben Kingsley e Benedict Cumberbatch dominam a cena em paralelo, cada qual a seu tempo e em modulações distintas, mas complementares, levando o relato de Dahl à sofisticação filosófica que se espera, e admirável assim mesmo. O tropo da nobreza espiritual, que Henry Sugar pensa que alcança, vem embalada no papel fino brilhante como só mesmo Anderson faria, excêntrico e transparente, com requinte e sem afetação.

No segundo, “O Cisne”, um garoto cativante, mas muito vulnerável, sofre a perseguição de vizinhos pouco mais velhos. Em seu roteiro, como já fizera em “A Incrível História de Henry Sugar” e “O Caçador de Ratos”, o diretor enriquece a narrativa de Dahl, um tanto árida demais, com elementos cênicos que movem a ação para o terreno pantanoso do sonho, esforço que a fotografia de Roman Coppola, puxando para tons esmaecidos de amarelo e cinza, completa. Rupert Friend leva o que é contado para o universo do drama, realçando a metalinguagem e novamente invocando o teatro com ambientes milimetricamente pensados, como as moitas de junco onde o menino se esconde de seus algozes. Peter Watson, o personagem de Asa Jennings, dá mesmo essa impressão de fuga permanente, decerto em busca de seu lugar no mundo. Tal como em outras circunstâncias, Rupert Friend submete-se à função de narrador onipresente e onisciente, trocando de lado com Jennings no clímax da história.

Enquanto isso, Anderson, bem a seu modo, abusa da câmera na mão e enquadramentos que captam a gravidade do fisionomia do ator, que, assim, dá pistas do destino que espera por Peter — sem que ninguém deixe de se chocar, entretanto. Do mesmo lugar em que surge nos outros curtas, uma poltrona clara à frente de uma parede em amarelo vivo, Ralph Fiennes encarna Dahl, impassível, deixando que seu enredo e as figuras que cria tomem seu caminho, limitando-se a, no máximo, inundar a cena com seu sarcasmo matador. Alegoria das dificuldades com que todos nos deparamos antes de alçarmos voo, “O Cisne” talvez seja o trabalho mais sombrio de Roald Dahl, cujo mérito não é só seu. Uma notícia de jornal — a imprensa e suas moléstias sempre foram uma de suas obsessões — permaneceu em seus guardados por trinta anos, esperando a oportunidade certa para dar o bote e ganhar vida. Roald Dahl ainda é uma esfinge a ser decifrada, e, desse modo, devora-nos a todos.

“O Caçador de Ratos”, o penúltimo, é um passeio de Dahl com seu leitor pela Wisteria Cottage, rua pacata de Amersham onde morou, durante uma das tardes dos anos 1940. O escritor alcançou a conclusão que os becos estreitos da cidadezinha nos arredores de Londres seriam o cenário perfeito para uma trama em que poderia descer ao mais fundo da natureza do homem com toda a segurança, sem sujar-se demais. Anderson principia a história exatamente como se tem em “Claud’s Dog” (1964), o ciclo de narrativas curtas surgido da observação de Amersham e seus habitantes. Um homem negro está sentado em frente ao jornal “Of The Day”, responsável por eternizar em suas páginas o cotidiano morno do lugarejo. A cidade enfrenta uma infestação de roedores, mas a solução parece muito mais simples do que se pensa. Deslocando-se pelas vielas sem fazer barulho, o personagem-título é o homem ideal para dar cabo do problema, por razões que vão se avultando à medida que o relato avança. Richard Ayoade, o negro do início, é o editor do diário, e parece apreensivo com a chegada do caçador de ratos vivido por Ralph Fiennes, impressionantemente mudado para o papel.

Fiennes encarna o próprio desconforto na pele de um sujeito de cabelos desgrenhados em melenas compridas à volta de uma calva grande, unhas longas e encardidas e dentes amarelados e pontudos, como se os muitos anos no encalço daqueles bichinhos repugnantes tivessem moldado sua fisionomia e seu caráter. “Para se apanhar ratos, é preciso ser mais esperto que eles, o que não é pouco”, repete o homúnculo deprimente, orgulhoso de seu êxito numa das atividades mais necessárias (e ultrajantes) de sua terra, no que o jornalista e Claud, o dono da oficina mecânica ao lado, são forçados a concordar. A conversa entre o trio, animoso entre si, mas ainda assim respeitoso, gira em torno das qualidades dos pequenos mamíferos que se tornaram uma praga diabólica em Amersham, até que os três homens descobrem pontos de contato em suas personalidades e suas trajetórias, o que Dahl faz degringolar num desfecho ainda mais asqueroso, momento em que cada um demonstra sua face proibida. Da mesma forma que em “A Incrível História de Henry Sugar”, Fiennes, Ayoade e Rupert Friend tem sua hora da estrela, contracenando diretamente — inclusive com um rato empalhado que ganha vida mediante computação gráfica, em nada ofensivo se comparado ao que sai da boca daqueles três infelizes. 

A coleção fecha com “Veneno”, a quarta (e última?) releitura cinematográfica de narrativas do galês de que Anderson tomou a frente com resultados que decerto surpreenderam-no. A lua banha uma casa ampla num lugar isolado. O supervisor Woods chega em casa à meia-noite atentando para desligar os faróis do carro e, assim, não acordar Harry Pope. O personagem de Dev Patel vai entrando, pé ante pé, para encontrar o amigo esticado na cama, os olhos esbugalhados, o semblante lívido, fazendo muita força para emitir um som, como se tivesse um ferimento de morte. O diretor logo desarma o mistério a sustentar o enredo, o que não faz a menor diferença: há uma krait repousando na barriga de Pope. Essas serpentes, cuja peçonha é uma das mais ofensivas do mundo animal, invadem as casas das pessoas, embrenhando-se pelas frestas em busca de calor, e a que toma o centro da narrativa permanece aninhada no ventre de sua possível vítima, quiçá esperando o momento oportuno para uma lauta refeição ou somente disposta a fazer daquelas as piores horas de sua vida, e ninguém sabe quanto tempo mais pretende ficar.

Da mesma forma que em “A Incrível História de Henry Sugar”, Benedict Cumberbatch transforma cada instante que se segue à revelação numa experiência multissensorial perturbadora e estimulante, até que um novo elemento junta-se à ação, numa engenhosa manobra do contista para tumultuar o que parecia definido. A chegada do doutor Ganderbai de Ben Kingsley com o antídoto, prevenindo-se do ataque da cobra, tão inevitável quanto letal, abre um vastíssimo leque de alternativas para o desfecho do caso. Dahl pode ter sido, sem o saber, o pioneiro nessas tramas em que o leitor acaba por decidir a sorte dos personagens, mais uma vez comprovando-se a tese vista em “O Caçador de Ratos” e “O Cisne” de que suas figuras têm vida própria e não cabe a ele intervir. O confronto dos dois homens, Pope e Ganderbai, é, todavia, muito mais que um exercício literário: é um tratado das paranoias humanas, que quase sempre degeneram num modo bastante terno de segregação.

Filme: A Incrível História de Henry Sugar e Outros 3 Contos
Direção: Wes Anderson
Ano: 2024
Gêneros: Comédia/Fantasia/Drama
Nota: 10

REVISTA BULA - POR GIANCARLO GALDINO EM FILMES - 15/03/2024 

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