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Quando a mesa da professora dá lugar a um piano

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Quando a mesa da professora dá lugar a um piano

Numa escola particular, a professora de classe decidiu trocar sua mesa por um piano e, além da euforia que causou aos alunos, quebrou um dos maiores códigos em sala de aula.

Assim como a carteira do aluno, a mesa da professora é um símbolo forte quando o assunto é escola. Difícil imaginar uma sala de aula sem essa suposta “ordem”. Na educação, a mesa é símbolo da centralidade do educador, seu poder sobre o conhecimento e aprendizagem das crianças. Não à toa, a mesa e a lousa são geralmente maiores em relação aos demais mobiliários da sala.

E meio que sem perceber, ou sem ter a intenção tão clara, uma professora de 4ª de uma escola waldorf em São Paulo, a Rudolf Steiner, trocou sua mesa por um piano. Isso mesmo: um piano. “Se cabe uma mesa, cabe um piano, eu pensei”, conta Glaucia Santos, que toca o instrumento desde os quatro anos. “Eu praticamente já não usava a mesa. Ela era mais um empecilho ali na frente da classe do que um objeto importante”. “Na relação escolar de professor e aluno não faz sentido uma mesa. Ela é mais um arquivo do que um instrumento de educação”, completa.

Uma observação extremamente interessante pensando que o “piano é um objeto partilhado, chama atenção para uma atividade coletiva coisa que a mesa do professor não atendia por ser espaço solitário”, aponta a professora Zilma de Moraes Ramos de Oliveira, umas das pessoas responsáveis pela elaboração da Base Nacional Comum Curricular. “A substituição da mesa pelo piano coloca em evidência a criação, a sensibilidade e outra perspectiva sobre o ouvir e escutar passivos (tão forte na escola convencional). Traz luz para um papel importante do educador: ser fonte de inspiração”, observa Raquel Franzim, co-coordenadora do Programa Escolas Transformadoras, iniciativa da Ashoka e correalizado pelo Instituto Alana, no Brasil.

Francesco Tonucci, pedagogo e pensador italiano, defende que a escola do hoje e do amanhã precisa ser uma escola aberta à beleza da potência de criação e expressão humana, a todas as belezas. À beleza do piano como a beleza da capoeira, do rap, da natureza e de suas formas, cores e sentidos; das tantas literaturas, clássica, contemporânea, marginal, nos gestos e movimentos das crianças ao brincar livre. “A abertura à beleza como expressão vital e potência de estudantes e educadores é urgente e transformadora da educação”, fala Raquel.

Numa escola waldorf é comum o professor de classe ter seu instrumento em sala. “A criança convive com a música de forma frequente e isso a aproxima da vida. Sem falar que cria ritmo sem que o professor precise levantar o tom de voz para pedir silêncio quando chegam agitados de uma atividade, por exemplo”. Inconscientemente, para a criança a música em sala de aula, usada de forma pedagógica, cria paradas para o ouvir com mais qualidade. E dai não apenas o instrumento em si, mas o outro também.

A escola inovadora
A percepção extremamente sensível, e particular, da professora Glaucia desperta para questões sobre o educar no mundo de hoje. Estamos tão acostumados a ver uma sala de aula composta por carteiras, mesa e lousa, que a troca pode causar estranhamento. Mas o papel de objetos como estes podem não ter mais sentido no século XXI e é essencial repensá-los. Isso porque a educação passa por momentos desafiadores e cabe a ela responder perguntas quase que existenciais. Como “o que ainda faz sentido?”. O que deve ser mantido, ou resgatado, e o que deve ser deixado para dar lugar a novas ideias e formatos? O que o aluno busca numa sala de aula? O que ele espera na relação aluno – professor? E como dar sentido a conteúdos que parecem tão sem sentido?

Perguntas como estas permeiam longas discussões entre os educadores e não há uma resposta certa. Há diversas delas e só quem tem coragem de arriscar é que está colhendo frutos do que muitos chamam de “ensino alternativo”. “Pensar em uma educação inovadora ou transformadora não é uma novidade na educação. A tensão entre o que deve ser conservado e o que deve ser transformado sempre existiram nesse campo”, pondera Raquel. “Cada época tratou de trazer um olhar para o que deveria ser transformado na educação: métodos ou metodologias, currículo, mobiliário ou ainda, na atualidade, a entrada e o manejo de novas tecnologias”.

Os movimentos são tão importantes que duas ONGS, Instituto Alana e Associação Cidade Escola Aprendiz, além do MEC têm projetos individuais onde eles mapeiam o que popularmente é chamado de “escolas alternativas”. O Escolas Transformadoras, idealizado pela Ashoka e realizado pelo Instituto Alana, definiu quatro competências das quais acredita serem essenciais ter numa escola para que ela seja considerada inovadora. São aquelas fundamentais para que crianças e jovens criem senso de responsabilidade pelo mundo e contribuam para torná-lo um lugar melhor. O programa teve início nos Estados Unidos, em 2009, e de lá para cá espalhou-se por 34 países. Hoje conta com uma rede formada por mais de 280 escolas, sendo 18 brasileiras.

Afim de dar vazão e partilhar conhecimento, a Cidade Escola Aprendiz, há 20 anos, atua no desenvolvimento de pessoas e comunidades através de experiências e políticas publicas, sempre orientadas pela perspectiva integral da educação. Na prática, isso significa que eles atuam diretamente com professores, educadores, lideres comunitários, alunos, pais e mães…enfim pessoas. Porque acreditam que envolver, e articular, todas essas pessoas é a melhor forma de garantia de educação. É a escola sem fronteiras, de portas abertas para a comunidade.

E o próprio MEC reconhece tais escolas como inovadoras. Para tanto, ele criou a plataforma Inovação e Criatividade, onde ele traz um mapa dessas escolas pelo Brasil. Até 2016, eram 178 escolas reconhecidas.

O que faz uma escola ser considerada inovadora é um conjunto de medidas. Muitas delas assustam pais e mães que veem no formato tradicional da escola uma garantia de futuro para o filho. Mas o que esse conjunto de medidas busca é formar seres humanos mais responsáveis e empáticos ao mundo e as questões que tanto nos preocupa. Escolas que buscam dar um sentido maior ao que antes se limitava a um conteúdo na lousa. “Os estudos de campo e as pesquisas que fizemos nos revelou que a principal inovação em curso é a das relações humanas dentro e fora da escola”, conta Raquel, do Alana. “São inúmeros exemplos que quebras nas escolas que nos revela a crença nas relações humanas”. “No contexto brasileiro ainda é inovador pensar que todas as crianças, jovens e adultos são capazes de ensinar, de aprender e de serem protagonistas das transformações que suas vidas necessitam, seja no âmbito individual ou no coletivo. E de que são necessárias condições dignas para se ensinar e aprender”, finaliza.

Neste contexto todo, a troca da mesa pelo piano da professora Glaucia Santos tem uma simbologia muito forte. A hierarquia dá lugar ao coletivo como forma de relação em sala de aula. A dura e imponente mesa dá lugar a música, a possibilidade de aprender pela melodia. A escuta.

“Para as crianças, foi como ter chegado um aluno novo em que eles vão precisar conhecer com tempo e carinho. Vai ser preciso escutar sua “voz” para ganharem confiança uns dos outros e deixarem ser tocados”, fala a professora. Pela música e pela companhia. Agora com uma professora-pianista como parte de uma orquestra, em que tem nos alunos a variedade de outros instrumentos. Uma possibilidade rica e inovadora para quem ensina e quem aprende.

ESTADÃO E Mais - POR CAROLINA DELBONI - 16/07/2018, 03h06

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