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Velejadores brasileiros presos com R$ 800 milhões em cocaína em Cabo Verde dizem ter sido enganados

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Velejadores brasileiros presos com R$ 800 milhões em cocaína em Cabo Verde dizem ter sido enganados

Foram 18 dias navegando em alto-mar, entre Natal (RN) e Cabo Verde, enfrentando princípio de incêndio, furacões, problemas elétricos, hidráulicos, motor de barco fundido, ondas gigantes, água entrando no casco, telefone via satélite quebrado e doenças.

O relato dessa viagem turbulenta foi registrado no Facebook pelo gaúcho Daniel Guerra, de 36 anos, assim que pisou em terra firme, em 22 de agosto. "Para muitos, ler isso poderá ser um sofrimento, mas para mim é uma alegria, 'it's my job' (é o meu trabalho), que me motiva e me deixa mais vivo com gana de quero mais", escreveu.

E completou: "Agora descansar? Hahaha. Que nada! Bora carimbar o passaporte e consertar o que tem para fazer, e vamos para o surf em mama África. E, se der um tempo, tomar uma cerveja e desfrutar da cultura local.

Não deu tempo. Horas depois da postagem, Guerra e outros dois marinheiros brasileiros - os baianos Rodrigo Dantas, de 25 anos, e Daniel Dantas, de 43 -, mais o capitão francês Olivier Thomas, foram presos em Cabo Verde.

A polícia diz ter recebido uma denúncia anônima e foi inspecionar o veleiro Rich Harvest. Encontrou sob o assoalho, em um esconderijo coberto de cimento, mais de uma tonelada de cocaína - uma carga avaliada em aproximadamente 200 milhões de euros (cerca de R$ 800 milhões).

Acusação e defesa

O capitão e Guerra foram presos em flagrante, porque estavam no barco. Desde então, estão encarcerados em Mindelo, na ilha de São Vicente.

Rodrigo e Daniel Dantas estavam em terra porque haviam sido demitidos - o primeiro porque teria discutido com o capitão e questionado as condições do barco para prosseguir viagem até Açoures e, o segundo, porque teria passado mal durante a viagem toda e ajudado pouco.

Os que não foram presos em flagrante ganharam o direito de responder ao processo em liberdade. Foi o que fizeram por quatro meses, até que um juiz determinou, há alguns dias, que fossem presos por "risco de fuga", entre outras alegações.

Os três brasileiros envolvidos no caso alegam inocência e afirmam desconhecer que estivessem transportando drogas.

Eles dizem terem sido enganados por uma quadrilha internacional da qual faria parte o contratante da viagem, um inglês que se chamaria George Saul, de apelido Fox (raposa). Autoridades de Cabo Verde dizem que essa pessoa está na lista de procurados da Interpol.

O julgamento deles deve ocorrer em até 45 dias.

Eles respondem à acusação do Ministério Público de Cabo Verde de "crime de tráfico de drogas de alto risco". O órgão alega que o crime aconteceu desde o primeiro momento em que a droga começou a ser transportada. A pena pode chegar a até 20 anos de reclusão, se for comprovada a associação ao tráfico.

Daniel Dantas relatou à família ter sofrido ameaça de morte "caso não confessasse o crime", quando foi preso há alguns dias.

Sua irmã Barbara Dantas procurou a Embaixada do Brasil em Cabo Verde para pedir que ajudassem a preservar a integridade física do irmão. O Itamaraty confirma ter recebido o pedido e diz que deslocou um diplomata para checar a situação dos presos.

Daniel GuerraDireito de imagemARQUIVO PESSOAL Image caption O gaúcho Daniel Guerra está preso há quatro meses em Cabo Verde por suspeita de tráfico de drogas; ele alega ter sido enganado por uma quadrilha internacional Foto |Arquivo pessoal

 

Procura-se marinheiro

Os familiares dos três brasileiros reiteraram, em entrevista à BBC Brasil, o relato dos parentes sobre como teriam ido parar naquele barco. Também apresentaram atestados negativos de antecedentes criminais dos velejadores, assim como e-mails trocados com a empresa que os contratou, além de passagens e fotos.

Guerra, Rodrigo e Daniel Dantas, que não têm parentesco, dizem que foram alertados de uma vaga de trabalho como marinheiros pelo instrutor náutico Arturo Justicio, com quem tiveram aulas em Ilhabela, no litoral de São Paulo.

O professor viu um anúncio de seleção de tripulação no Brasil, para conduzir um veleiro até Açoures. A oferta partiu da empresa holandesa The Yacht Company, que oferece "delivery" de embarcações, ou seja, contrata profissionais para levarem barcos de um lugar a outro pelo mundo. Justicio se lembrou dos alunos e encaminhou o anúncio.

A proposta parecia interessante, apesar de não haver remuneração.

A empresa oferecia passagens para as cidades de onde partiriam e de onde regressariam e alimentação. Em troca, além da experiência, os velejadores ganhariam milhas náuticas - com a soma destas, eles poderiam ir conquistando novas categorias de habilitação na Marinha.

Como os três brasileiros queriam ganhar a vida velejando e diziam precisar dessas milhas, se inscreveram e foram aceitos para o trabalho.

Guerra e Rodrigo foram os primeiros selecionados. Daniel Dantas só entrou na história, dizem, depois que uma terceira pessoa desistiu da viagem, quando o barco apresentou os primeiros problemas técnicos em Natal (RN).

'Raposa'

Em Salvador, de onde o barco saiu no dia 29 de junho, Rodrigo e Guerra conheceram o contratante da viagem, o inglês de apelido Fox.

O pai de Rodrigo, João Dantas, diz que até levou o estrangeiro para almoçar, já que queria conhecê-lo melhor. Diz tê-lo achado "uma simpatia" e conta que ele assegurou que o barco estava em boas condições para viajar, o que, segundo os tripulantes, não seria verdade.

A embarcação teria apresentado os primeiros problemas ainda no Brasil e teria sido preciso ancorar em Natal para o conserto, que levaria quase um mês. O inglês Fox teria abandonado o grupo no dia 16/7, dizendo que voltaria para a Europa. No dia 24/7, eles zarparam rumo a Açoures e teriam enfrentado durante viagem os problemas relatados por Guerra em seu Facebook.

Questionado pela BBC Brasil se averiguava antecedentes criminais e outras informações das pessoas que contratam os serviços de sua empresa, o holandês Cuno Landman, dono da The Yacht Company, afirmou inicialmente que "não conhecia" a história.

Frente à insistência da reportagem, mostrou ter informações sobre o caso e disse ter sido aconselhado pela polícia holandesa a não se pronunciar.

Por e-mail, ele disse que rompeu o contrato da entrega do barco ainda no Brasil, mas não enviou nenhuma documentação comprovando isso.

Daniel Dantas e moradoras de Cabo Verde

Daniel Dantas (à esq.) com moradoras de Cabo Verde; ele estava respondendo ao processo em liberdade até ser preso em dezembro Foto | Arquivo pessoal

 

Vida sobre as ondas

O gaúcho Daniel Guerra é formado em relações internacionais e chegou a fazer mestrado em Portugal.

Desistiu de seguir carreira em sua área, conta a mãe, a professora aposentada Fátima Guerra, de 64 anos, para se dedicar à sua "paixão pelo mar e por velejar", algo que aprendeu morando em Florianópolis (SC), onde fez sua graduação.

Guerra, que trabalhava esporadicamente em hotéis, estava feliz com a viagem, conta ela, que, junto com o marido, o caminhoneiro Télio Guerra, tirou passaporte pela primeira vez para poder visitar o filho na cadeia em Cabo Verde.

Fátima conta que ele perdeu 18 quilos na prisão e que está muito abalado com tudo que aconteceu. "Ele é inocente. Um rapaz bom, de caráter, honesto. Todos que o conhecem sabem disso. Eles foram enganados", diz ela. "Mas tenho fé: meu filho vai ser inocentado."

O baiano Rodrigo Dantas também quis largar tudo para ser velejador.

A paixão pelo mar e por barcos ele adquiriu com o pai. Quando estava no segundo ano de engenharia mecânica, diz João Dantas, o filho disse que queria trancar o curso para se tornar um velejador. Tempos depois, foi fazer o curso de navegação com Arturo Justicio, em Ilhabela (SP).

"Meu filho é honesto, dócil, trabalhador. Nós vamos trazer ele de volta", diz o administrador de empresas João. A mãe de Rodrigo, Aniete, está em Cabo Verde acompanhando o filho.

Já Daniel Dantas, também baiano, trabalhava como corretor de imóveis em Salvador até perder o emprego "por causa da crise", conta a irmã Barbara, microempresária.

Foi aí que ele teria decidido que seria velejador, já que "amava navegar".

"Ele estava muito feliz com essa viagem", diz Bárbara. Ela afirma que todos "foram vítimas de uma armação" e que "há todo o interesse" em botar a culpa nos marinheiros, "até porque essa droga ainda está lá em Cabo Verde e não foi incinerada".

Barbara diz que fica o alerta para outras pessoas que começaram a velejar para que não acreditem em todas as propostas de trabalho oferecidas por empresas como a The Yacht Company, que atuam como uma plataforma de recrutamento de tripulação, sem checar informações de quem contrata os serviços. Ela diz estar contando com a ajuda financeira de parentes para poder ir visitar o irmão.

Defesa

O advogado Oswaldo Lopes Lima, contratado pelas famílias para defender os acusados, diz estar confiante na vitória dos clientes. Ele também afirma que o pedido de prisão novamente de Rodrigo e Daniel Dantas "não tem cabimento", pois ambos se apresentavam semanalmente à Justiça e tinham passaportes retidos.

"Não há no processo nenhum fato que comprove a acusação do Ministério Público. Como pessoas de diferentes partes do Brasil receberam a dica de um trabalho, se inscreveram e conseguiram e foram viajar juntas? Temos as mensagens de todo esse processo. Outra coisa, como as pessoas que transportam uma carga de 200 milhões de euros não têm uma arma no barco? Também nas buscas não foi encontrado dinheiro. Como é possível? O dono do barco é procurado pela Interpol. Isso é um fato. A única prova que eles têm contra meus clientes é que eles estavam no barco", diz à BBC.

O Itamaraty diz que os representantes da Embaixada em Cabo Verde estão acompanhando o caso e já prestaram assistência às famílias. O órgão diz ainda não pode interferir em nenhum trabalho do Poder Judiciário.

- BBC Brasil e Londres - 

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