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Vítima de violência doméstica supera traumas com poesia: 'É como oração'

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Vítima de violência doméstica supera traumas com poesia: 'É como oração'

"Somos guerreiras", comenta moradora de Dois Córregos no Dia da Mulher. Neta de poetisa segue os passos da avó e já faz as primeiras poesias.

O jeito alegre e tranquilo de Maria Garcia da Silva, hoje com 63 anos, pouco se assemelha com a mulher que foi vítima de violência doméstica por muitos anos. Para superar todos os problemas, a moradora de Dois Córregos (SP) se apoiou em uma arma muito forte: a poesia. Um dom que ela tem desde criança e que usou para homenagear todas as mulheres nesta quarta-feira (8), quando é comemorado o Dia Internacional da Mulher.

“A poesia lava a alma. Eu falo que ela é o balsamo para a dor, é a esperança. Eu sempre me alimentei da poesia. Cada surra que eu levava, eu escrevia. As marcas que estavam na minha perna, estavam na minha alma, desde menina. Na poesia parece que vem um alívio que faz eu superar isso”, conta a poetisa.

Filha de uma violência sexual, Maria foi criada por pais adotivos e se casou aos 17 anos após engravidar do primeiro filho. A vida com seu companheiro, com quem teve seis filhos, não foi fácil, principalmente depois que teve que colocar o sexto filho para adoção. “Minha vida não era fácil, passei por muita necessidade. O último foi dado para adoção ainda no hospital pelo meu pai e não sei onde ele está.”

Maria ainda tentou reerguer a vida sem o marido e com cinco filhos para criar, mas ela conta que um dia seu ex-marido a visitou e levou seus cinco filhos à força. “Foi horrível ele levando meus filhos. Depois de 40 anos consegui encontrar dois deles, mas nenhum sabe onde o irmão está”, conta.

A poetisa se casou de novo e deste novo relacionamento, sofreu três abortos e muitas marcas de agressões do marido, mas também teve a sua filha, que é sua companheira. Quando conseguiu se separar, mudou-se para Dois Córregos com a filha ainda pequena. Nessa cidade ela casou novamente e, então, conseguiu ter uma vida mais digna.

Vítima de violência doméstica supera traumas com poesia: Maria e a mãe adotiva
(Foto: Maria Garcia/Arquivo Pessoal)

Foi na cidade do interior de São Paulo que ela reaprendeu a fazer poesia através de integrantes do Instituto Usina dos Sonhos. “Eu fazia poesia desde criança. Mas quando passei por todos os problemas parei um pouco. Então há 8 anos ela (poesia) voltou a escrever. Eu era bem diferente, não tinha esse sorriso. Andava com roupa rasgada. Se não fosse a poesia eu acho que teria buscado um vício. Ela foi a superação porque tudo que eu sentia era poesia. É como uma oração, é sagrada.”

Ensinando o dom
Para repassar tudo o que ela tem recebido de carinho através da poesia, ela também resolveu ensinar. Maria passa nas escolas mostrando o gosto pela arte de recitar. “É gratificante. Quando você trabalha com uma criança para eles entenderem que a poesia não é só você escrever, na poesia entra sujeito, substantivo, plural, abstrato, porque o amor é abstrato. Você sente, mas ninguém vê. Eu dou um tema como um passarinho, um desenho. Sai uma de um jeito, uma de outro e assim eles vão fazendo”, conta.

Ela guarda com carinho a poesia de todas as crianças, principalmente a da neta Ana Laura Garcia Bueno de 15 anos que já segue os passos da avó. “Fiz minha primeira poesia para um concurso da escola e minha avó me ajudou. Ela pega desenhos e pede para escrevermos sobre o desenho”, conta Ana Laura.

Apesar de todo sofrimento, Maria aprendeu a viver cada bom momento que a vida lhe oferece e comemora o Dia Internacional da Mulher ao lado da filha e da neta, suas grandes amigas. “Nós somos mulheres guerreiras, mulher é um ser muito forte. Cada um tem uma história e tem um jeito de contornar aquela história. Cada um tem que buscar o que faz melhor.”

Vítima de violência doméstica supera traumas com poesia: Neta de poetisa já segue os passos de avó (Foto: Renata Marconi/G1)

Renata Marconi Do G1 Bauru e Marília

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